Uma história de quase-amor, acima de tudo

escrito por Ana Gomes

Em minha primitiva leitura do cenário no qual o cinema nacional está inserido, identifico três grandes blocos:

  1. Os Gladiadores: aqueles que giram em torno da violência e fazem dela seu principal mote;
  2. Os engraçados ou pseudo-engraçados: aqueles que nos fazem rir e parecem caminhar do nada pra lugar algum;
  3. Os romances e/ou densos e/ou profundos e/ou cabeça: aqui é possível classificar os que se propõem a alguma discussão mais erudita, mas nem sempre obtém sucesso na empreitada.

Não por acaso os filmes baseados em nossa violência explícita ganharam o mundo – vide Tropa de Elite. E você pode até argumentar que O Quatrilho e Central do Brasil quase chegaram lá, mas não vamos aqui comparar maçãs com laranjas. A considerar a maturação da cena brasileira, desde Carla Camurati e o papelão de Guilherme Fontes até exemplares diretores da terrinha fazendo fama no exterior, chegamos em “2 Coelhos” e sua fórmula (aparentemente) clichê.

Clichê por ter um pseudo-justiceiro, uma mocinha linda, bandidos forrados de estereótipos, deputado corrupto e um ser misterioso. Se você for assistir ao filme atente-se à cena inicial pois ela amarra toda história.

Com um Caco Ciocler que quase entra mudo e sai calado (mas nem por isso é menos, ao contrário); uma Alessandra Negrini que participa de estados de consciência surreais; um Fernando Alvez Pinto quase desconhecido, mas um protagonista de fato e um Marat Descartes que rouba a cena, “2 Coelhos”, numa leitura superficial ,parece ser só mais um sub-produto de Cidade de Deus ambientado na capital paulista. Engano.

Com um roteiro muito bem construído que possui um ritmo próprio, a corrupção é feminina, o chefão da bandidagem usa Adidas, os palavrões são como vírgulas e as favelas aparecem em planos gerais, com grafismos e linguagem bastante dinâmica. No grupo da marginalidade oficial (os bandidos, não os políticos), claro, não podiam faltar o funk e um bom carioca pra dar o tom, além da pontuação cômica que o bando imprime à trama. Eles falam de Big Brother, usam i-Phone (aliás, todos usam) e, apesar de São Paulo ser uma cidade sem trânsito (ficção, ficção), o êxtase é no estouro do deputado – cena que promete promover uma catarse nas 300 salas de cinema em que o filme estará disponível na próxima sexta, dia 20.

Contudo, não se deixe enganar mesmo. A proposta do longa de quase duas horas é atingir os jovens, mas, sem preconceito, duvido que eles consigam alcançar a real essência do filme. Surpreendendo a todo momento, a história versa, acima de tudo, sobre a culpa e o egoísmo, ambos disfarçados de (tentativa de) redenção, benevolência e altruísmo. É um brincar de Deus, com o gingado brasileiro. Destaque para Afonso Poyart,o faz-tudo desta produção. O elenco dá conta e passa o recado: o cinema brasileiro, finalmente, amadureceu. Já não era sem tempo.

Ficha Técnica

Direção: Afonso Poyart

Roteiro: Afonso Poyart

Elenco: Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Fernando Alves Pinto, Marat Descartes, Neco Vila Lobos, Roberto Marchese, Norival Rizzo, Thogun, Thaíde, Yoram Blaschkauer, Robson Nunes e partipação espercial de Aldine Muller

Duração: 104 min

Classificação: 16 anos

Estreia: 20/01/2012

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